Atualizado em 8 de outubro de 2026.
Os mestres do carimbó são os músicos, cantadores, artesãos de tambores e dançarinos das comunidades do Pará que guardam o ritmo e o ensinam às novas gerações, um saber que o Iphan reconheceu como Patrimônio Cultural do Brasil em setembro de 2014. Este guia apresenta os principais artistas e cantores de carimbó: quem são, de onde vêm, o que fizeram pelo ritmo, as músicas mais famosas e onde ouvi-los.
Da roda de pau e corda ao palco elétrico, cada mestre abaixo puxou o ritmo para um lado; a origem, os instrumentos e a dança estão no guia sobre o que é carimbó.
Pinduca: o Rei do Carimbó

Aurino Quirino Gonçalves nasceu em Igarapé-Miri em 4 de junho de 1937, filho de um professor de música, e ainda menino já tocava percussão. Aos 14 anos foi para Belém tocar em bandas de baile. Em 1973 gravou “Carimbó e Sirimbó do Pinduca” e fez o que ninguém tinha feito: pôs guitarra, baixo, teclado e bateria no carimbó. O ritmo saiu do Pará e chegou às rádios e à televisão do país inteiro.
Em 2017, o álbum “No Embalo do Pinduca” foi indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Raízes Brasileiras; em 2025, a Assembleia Legislativa declarou sua obra Patrimônio Cultural e Artístico de Natureza Imaterial do Pará. Aos 89 anos, segue fazendo shows: está anunciado no Festival Psica 2026, em Belém, em dezembro. A história disco a disco está na Enciclopédia Itaú Cultural.
Mestre Verequete: o rei do carimbó pau e corda
Augusto Gomes Rodrigues nasceu em 26 de agosto de 1916 na localidade de Careca, perto da vila de Quatipuru, então município de Bragança, e morreu em 2009. Enquanto Pinduca eletrificava o ritmo, Verequete defendia o carimbó de raiz, tocado no estilo pau e corda: curimbós, banjo, maracas e sopro. Fundou em Belém o Conjunto Uirapuru da Amazônia, gravou cerca de 200 músicas em dez LPs e quatro CDs, entre elas “Chama Verequete” e “Ilha do Marajó”, e recebeu a Ordem do Mérito Cultural. Não chegou a ver o registro do Iphan. Para ouvir: a Rádio Web UFPA guarda sua memória musical.
Dona Onete: a diva do carimbó chamegado

Nascida em Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó, em 1939, Dona Onete foi professora de história e geografia por 25 anos e secretária de cultura em Igarapé-Miri, no Baixo Tocantins. Só virou cantora profissional depois de se aposentar, aos 62 anos, e gravou o primeiro disco, “Feitiço Caboclo”, em 2012, já com mais de 70 anos. Vieram “Banzeiro” (2016) e “Rebujo” (2019).
Ela inventou o carimbó chamegado: mais lento, mais sensual, feito para dançar juntinho. Levou o ritmo ao Rock in Rio, a festivais da Europa e a Nova York. Onde ouvir: no canal oficial de Dona Onete no YouTube. Ela também está na nossa lista de cantoras paraenses.
Mestre Damasceno e Mestre Lourival Igarapé: dois cantores de carimbó que o Pará perdeu em 2025
Damasceno Gregório dos Santos, o Mestre Damasceno, nasceu em 22 de julho de 1954 em Salvaterra, no Marajó, no quilombo de Salvá. Cantor e compositor de carimbó e de toadas de boi, criou o Búfalo-Bumbá, folguedo junino inspirado nos búfalos da ilha, e desde 2013 tocava com o Conjunto de Carimbó Nativos Marajoara, com quem lançou em 2023 o álbum “Chegou Meu Boi”, de onze faixas autorais gravadas em Salvaterra. Recebeu o Prêmio Seiva de Mestre da Cultura Popular em 2015, teve a obra declarada patrimônio cultural imaterial do Pará em 2023 e, em 2025, a Ordem do Mérito Cultural. Morreu em Belém em 26 de agosto de 2025, aos 71 anos, no Dia Municipal do Carimbó, e foi lembrado com um minuto de silêncio na Assembleia Legislativa do Pará.
Mestre Lourival Igarapé nasceu na comunidade do Caripi, em Igarapé-Açu, e chegou a Belém nos anos 1970. Cantor, compositor, percussionista e artesão, fez de Icoaraci a sua base: desde os anos 1980 mantinha ali uma escolinha de carimbó para crianças e era um dos guardiões do projeto Rodando com Carimbó, que percorre cidades do nordeste paraense. Começou a compor aos 55 anos; em 2024 lançou o EP “Queimadas”, de mensagem ambiental, com a participação de 32 carimbozeiros, e o single “Gaiola”. Morreu em 7 de agosto de 2025, aos 74 anos, em Belém, segundo O Liberal.
Grupo Uirapuru: a tradição de Marapanim, a Terra do Carimbó

Marapanim, no nordeste do Pará, é chamada de Terra do Carimbó: tem dezenas de grupos em atividade e um festival anual em dezembro, com rodas e mestres na Praça Nossa Senhora das Vitórias. Entre os grupos mais tradicionais está o Uirapuru de Marapanim — homônimo, mas distinto do conjunto de Verequete, em Belém —, cuja associação cultural assinou o pedido de registro do carimbó ao Iphan.
Seu presidente, Mestre Manoel (Manoel Aguinaldo Farias Pinto), é pescador, artesão de curimbós e milheiros e compositor. Entrou no grupo aos 22 anos, convidado pelos mestres Ninito e Luís, e recebeu da Fundação Cultural do Pará o Prêmio Seiva de Mestre de Carimbó em 2017. O grupo mantém uma escolinha para crianças, o Uirapuru Mirim. Fotos, vídeos e formação completa estão na cartografia Territórios do Carimbó.
Arraial do Pavulagem: o carimbó nas ruas de Belém

Criado em Belém em 1987 pelos músicos Ronaldo Silva, Júnior Soares e Rui Baldez, o Arraial do Pavulagem é ao mesmo tempo banda e movimento de rua. Nos domingos do período junino, entre junho e julho, o Arrastão do Pavulagem sai da Praça da República, em frente ao Theatro da Paz, e desce até a Praça Waldemar Henrique com milhares de brincantes de chapéu de palha e fitas coloridas, ao som de carimbó, siriá e lundu marajoara.
Desde 2003, o Instituto Arraial do Pavulagem mantém oficinas que formam os novos brincantes e organiza também o Arrastão do Círio. O cortejo é Patrimônio Cultural de Belém (2017) e do Pará (2020), e em 4 de setembro de 2024 a Lei federal 14.961 o reconheceu como manifestação da cultura nacional. Discos e agenda: site do Arraial do Pavulagem.
Mestres do carimbó no Baixo Amazonas: Alter do Chão e Santarém

No oeste do Pará, o carimbó tem sotaque próprio. Em Alter do Chão, vila de Santarém, o Movimento de Roda de Curimbó, criado em 2010, religou o ritmo às danças do Sairé, a festa de setembro. Dele saíram grupos como o Cobra Grande, que toca ao lado do Mestre Chico Malta, compositor que dá nome ao centro de referência do carimbó na vila, onde acontece, toda quinta-feira, a roda “Quinta do Mestre e a Sereia”.
Espanta Cão, Kuatá, Cumaru e Suraras do Tapajós completam a cena, que se encontra no Carnarimbó, o carnaval ao som de carimbó, e no Festival Alter do Som, em dezembro. A Prefeitura de Santarém publica a programação.
Quem defendeu o pau e corda e quem eletrificou o carimbó
Verequete gravou com o Conjunto Uirapuru, em 1971, o primeiro LP de carimbó do Pará e passou a vida defendendo o pau e corda; Pinduca pôs guitarra, baixo e bateria no ritmo em 1973 e o levou ao rádio do país inteiro. Mestre Manoel, com o Uirapuru de Marapanim, e os mestres de Alter do Chão seguem na roda acústica, como faziam Damasceno e Lourival Igarapé; Dona Onete e o Arraial do Pavulagem tocam o estilo moderno com sotaque próprio. O que muda em instrumentos, formação e dança entre as duas vertentes está em o que é carimbó: origem, história e dança.
Músicas de carimbó famosas
Seis gravações que marcaram o ritmo, com artista e ano de lançamento:
- “Sinhá Pureza”, Pinduca (1974): gravada no LP “Carimbó e Sirimbó no Embalo do Pinduca Vol. 2”, é uma das músicas mais conhecidas do carimbó, sobretudo fora do estado, e uma espécie de canção-símbolo do ritmo e do Pará, segundo a Enciclopédia Itaú Cultural.
- “Lambada”, Pinduca (1976): tema instrumental do LP “No Embalo do Carimbó e Sirimbó Vol. 5”, o primeiro registro fonográfico da lambada, subgênero derivado do carimbó.
- “Chama Verequete”, Mestre Verequete e o Conjunto Uirapuru (1977): ponto de domínio público que o mestre gravou no LP “Verequete Vol. 05 (Carimbó Original)” e que explica o seu nome artístico.
- “Jamburana”, Dona Onete (2012): do disco de estreia “Feitiço Caboclo”, fala da cachaça de jambu, a erva que amortece a boca.
- “No Meio do Pitiú”, Dona Onete (2016): do álbum “Banzeiro”, chamada de hino dos paraenses pela imprensa de Belém.
- “Banzeiro”, Dona Onete (2016): faixa-título do mesmo álbum, regravada por Daniela Mercury em 2018, quando virou sucesso do carnaval de Salvador.
Perguntas frequentes
Quem são os mestres do carimbó?
São os músicos, compositores, artesãos de tambores e dançarinos que aprenderam o carimbó nas comunidades do Pará e o transmitem às novas gerações. O título nasce do reconhecimento da própria comunidade carimbozeira e é acolhido por políticas públicas: a Fundação Cultural do Pará premia mestres com o Prêmio Seiva, e o Iphan faz a salvaguarda com o coletivo de Mestres e Mestras Detentores do Saber do Carimbó. Pinduca, Mestre Verequete, Dona Onete, Mestre Manoel, Mestre Chico Malta, Mestre Damasceno e Mestre Lourival Igarapé são alguns deles.
Quem é o rei do carimbó?
Dois mestres carregam o título. Pinduca (Aurino Quirino Gonçalves, Igarapé-Miri, 1937) é chamado de Rei do Carimbó pela imprensa e pela Enciclopédia Itaú Cultural por ter modernizado o ritmo nos anos 1970 e o levado ao Brasil inteiro. Mestre Verequete (Augusto Gomes Rodrigues, 1916–2009) também é chamado de Rei do Carimbó, o do estilo tradicional, pau e corda. Não é um título oficial: é reconhecimento popular.
Quem foi Mestre Verequete?
Augusto Gomes Rodrigues (1916–2009), nascido perto de Quatipuru, no nordeste do Pará. Fundou em Belém o Conjunto Uirapuru da Amazônia, com o qual gravou em 1971 o primeiro LP de carimbó do estado, e defendeu a vida inteira o carimbó pau e corda, acústico. Gravou cerca de 200 músicas, entre elas Chama Verequete e Ilha do Marajó, e recebeu a Ordem do Mérito Cultural. Seu aniversário, 26 de agosto, é celebrado como Dia do Carimbó.
Quais são as músicas de carimbó mais famosas?
Sinhá Pureza (Pinduca, 1974), Chama Verequete (Mestre Verequete, 1977), Jamburana (Dona Onete, 2012) e No Meio do Pitiú e Banzeiro (Dona Onete, 2016) estão entre as mais conhecidas. Sinhá Pureza é uma das músicas mais conhecidas do carimbó, sobretudo fora do Pará, e costuma entrar no repertório de outros artistas paraenses.
Onde ouvir os mestres do carimbó ao vivo?
Em Marapanim, a Terra do Carimbó, no Festival de Carimbó de dezembro, com o Uirapuru de Mestre Manoel; em Alter do Chão (Santarém), nas rodas do centro de referência Mestre Chico Malta, no Carnarimbó e no Sairé, em setembro; e em Belém, nos arrastões do Arraial do Pavulagem, aos domingos do período junino, entre junho e julho, e nos shows de Pinduca e Dona Onete, que seguem em atividade.
Quem é Dona Onete?
Cantora e compositora nascida em Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó, em 1939. Foi professora por 25 anos e secretária de cultura em Igarapé-Miri antes de gravar o primeiro disco, Feitiço Caboclo, em 2012, já com mais de 70 anos. Criou o carimbó chamegado, mais lento e sensual, e hoje leva o ritmo a palcos do Brasil, da Europa e dos Estados Unidos.
A Zoé no Pará dos mestres
O carimbó é feito por pescadores, lavradores e ribeirinhos, o mesmo Pará profundo que a ONG Zoé atende. Com base em Belterra, no Tapajós, a Zoé leva profissionais de saúde voluntários a comunidades ribeirinhas e indígenas do Pará e do Amazonas: foram 54 expedições e 31.254 atendimentos até outubro de 2026. Para ir além da música: Doar para a Zoé ou candidatar-se como voluntário.