Belterra, PA: onde fica, história da cidade americana de Henry Ford e como chegar

Belterra, no oeste do Pará, nasceu em 1934 como a segunda tentativa de Henry Ford de plantar seringueiras na Amazônia. Veja onde fica, quantos habitantes tem, como chegar a partir de Santarém, o que restou da cidade americana e o que fazer entre a Floresta Nacional do Tapajós e as praias de rio.
Plínio Averbach
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Henry Ford tentou transformar a floresta amazônica em uma réplica do Meio-Oeste americano. Depois do fracasso de Fordlândia, erguida a partir de 1928 às margens do rio Tapajós, a Companhia Ford tentou de novo, mais ao norte, em uma área de terra preta que ficou conhecida como Belterra. A cidade planejada nasceu em 1934, com casas de madeira, hidrantes vermelhos e um hospital que virou referência na região. O projeto da borracha acabou, mas a cidade ficou: hoje Belterra é um município do oeste do Pará, vizinho de Santarém, com 18 mil habitantes, um centro histórico preservado e mais da metade do território dentro da Floresta Nacional do Tapajós.

Belterra em resumo

  • Onde fica: no oeste do Pará, na região de Santarém (mesorregião do Baixo Amazonas), na margem direita do Baixo Tapajós.
  • Distância e acesso: cerca de 45 km do centro de Santarém pela rodovia federal BR-163, segundo a Prefeitura de Belterra e a Prefeitura de Santarém.
  • População: 18.099 habitantes no Censo 2022 do IBGE (eram 16.318 em 2010), em 4.398 km² de área.
  • Fundação: 1934, pela Companhia Ford, de Henry Ford; os primeiros operários foram contratados naquele ano e o aniversário da cidade é 4 de maio.
  • Emancipação: Lei Estadual nº 5.928, de 29 de dezembro de 1995, que desmembrou Belterra de Santarém; o município foi instalado em 1º de janeiro de 1997.
  • O que ver: as casas americanas da Vila Americana, o Bosque das Seringueiras, as caixas d’água da era Ford, as praias de rio do Tapajós e a Floresta Nacional do Tapajós.
  • A Zoé em Belterra: a ONG Zoé tem filial no município, que é a base das suas expedições de saúde no Tapajós (veja ao final do texto).
Mapa do estado do Pará com o município de Belterra destacado em vermelho, no oeste do estado

A queda de Fordlândia e a ascensão de Belterra

A história de Belterra começa na segunda década do século XX, logo depois da Primeira Guerra Mundial. Com as dificuldades econômicas do pós-guerra, o preço da borracha caiu, e ingleses e holandeses reduziram a cota de cada produtor de suas colônias no Sudeste Asiático para forçar a alta. A medida atingiu em cheio os consumidores industriais, sobretudo os norte-americanos, que passaram a buscar autossuficiência nessa matéria-prima.

Foi nesse cenário que Henry Ford, dono da Ford Motor Company, criou a Companhia Ford Industrial do Brasil e iniciou a plantação ordenada de seringueiras, primeiro em Fordlândia, às margens do Tapajós, e depois em Belterra. A concessão de um milhão de hectares às margens do Tapajós foi assinada em 21 de julho de 1927 e a expedição da companhia partiu em 1928; até 1941, Fordlândia e Belterra somavam 3.651.500 seringueiras plantadas, segundo o acervo do The Henry Ford. Há controvérsias, mas acredita-se que erros de administração, que não enxergou as diferenças culturais entre os engenheiros americanos e os seringueiros brasileiros, contribuíram para o fracasso (All That’s Interesting).

Apesar das facilidades criadas, como escolas, hospital e oficinas mecânicas, a ideia de fazer de Fordlândia uma cidade ideal, com atividades culturais e recreativas e proibição de bebidas alcoólicas, colidiu com os hábitos dos trabalhadores. Em dezembro de 1930 houve uma manifestação violenta, deflagrada pela troca do serviço à mesa por filas de autosserviço no refeitório. A revolta foi contida por militares, mas não houve acordo com a maioria dos trabalhadores, que acabaram demitidos.

Veículo antigo enferrujado guardado em um galpão da era Ford, em Fordlândia
Torno mecânico antigo abandonado dentro do galpão industrial de Fordlândia
Galpão industrial da Companhia Ford em Fordlândia, com telhado em duas águas e cerca ao redor

Fordlândia hoje é uma cidade fantasma. A visita é interessante porque é possível conhecer o que sobrou das construções, algumas quase em ruínas, outras ocupadas e transformadas em moradia. Há um grande galpão com maquinário antigo, ferramentas e alguns carros, tudo coberto pela poeira.

Belterra, um novo começo

Casa de madeira branca com janelas verdes e hidrante vermelho na calçada, na Vila Americana de Belterra

Depois do fracasso dos seringais de Fordlândia, causado pelo solo inadequado e por uma praga até então desconhecida, Ford precisou de um terreno plano, com solo rico em minerais e matéria orgânica. Segundo o histórico do município publicado pelo IBGE e pela Prefeitura de Belterra, várias expedições foram feitas até encontrar a área que ficou conhecida como “Bela Terra”, famosa pela abundância de terra preta, o solo fértil amazônico, e pelo relevo favorável. O fácil acesso pelo rio ajudaria a escoar a produção. O governo brasileiro cedeu a área à Companhia Ford.

Os primeiros operários foram contratados em 1934. Em 4 de maio daquele ano começaram a limpeza dos seringais e a construção das casas e do hospital, e por isso a cidade comemora seu aniversário nessa data. A arquitetura seguiu o modelo americano, com casas de madeira, varandas e hidrantes nas ruas, e a educação oferecida na vila era considerada de excelente qualidade. Um detalhe curioso: Henry Ford nunca visitou Belterra, embora uma casa tenha sido construída especialmente para ele. Ele temia as doenças tropicais.

No novo local, outro fungo devastou os seringais, o que, somado às dificuldades logísticas, pôs abaixo o sonho de Ford. A primeira extração comercial de látex só veio em 1942, e a produção ficou muito abaixo do que a montadora consumia. A produção e a exportação chegaram a dar lucro, mas, com o surgimento da borracha sintética e a concorrência asiática de baixo custo, o projeto, planejado para durar um século, foi abandonado: em 1945 a Ford entregou as plantações ao governo brasileiro por 250 mil dólares, depois de investir cerca de 20 milhões, segundo o acervo do The Henry Ford. Belterra voltou então ao controle do governo brasileiro e passou a integrar o município de Santarém. Ficou uma infraestrutura considerável: casas, rede de hidrantes, caixas d’água e o Hospital Henry Ford. Para conhecer mais sobre a cidade, leia também Um pouco sobre Belterra.

O desmatamento inicial

Para implantar o projeto, cerca de 2.500 acres de vegetação original foram derrubados, o equivalente a pouco mais de mil hectares, segundo o histórico do IBGE. Esse desmatamento abriu espaço para os seringais e para a construção da cidade, mas também significou perda de biodiversidade e alteração do ecossistema local, um impacto que hoje contrasta com o papel de Belterra como porta de entrada de uma das maiores florestas nacionais do país.

Hospital Henry Ford

Fachada do antigo Hospital Henry Ford em Belterra: prédio baixo de telhado de telhas e palmeiras ao lado

Na década de 1930, durante a administração da Companhia Ford, foi construído em Belterra um hospital que, segundo relatos da época, estava entre os mais bem equipados da América do Sul. O investimento se justificava pela quantidade de trabalhadores nas plantações e pela distância até a cidade mais próxima, Santarém. O risco de adoecer era maior para quem vivia na floresta, convivendo com insetos e animais peçonhentos comuns na Amazônia.

O hospital era um marco da vila americana e atendia todos os trabalhadores e suas famílias, de procedimentos simples aos mais complexos. Médicos de vários países, como França, Holanda e Brasil, eram contratados para garantir a qualidade do atendimento.

Incêndio do Hospital Henry Ford em Belterra, com chamas e fumaça saindo do prédio de madeira

Esse patrimônio histórico foi destruído pelo fogo em meados da década de 2000, e até hoje não se sabe como o incêndio começou. Quem estava presente lamentava a perda irreparável de um lugar que fez parte da vida de muitas famílias. Sobraram cinzas e os ferros retorcidos dos móveis. O prédio não foi reconstruído: é no terreno do antigo hospital que está sendo implantado o Museu de Ciências de Belterra, projeto apoiado pelo BNDES.

De distrito a município: preservação e economia atual

Rua calçada do centro histórico de Belterra, com casa de madeira e árvores frondosas

Depois de voltar ao governo brasileiro, Belterra foi elevada a distrito de Santarém pela Lei Estadual nº 62, de 31 de dezembro de 1947, desmembrada do distrito de Alter do Chão. A emancipação veio quase meio século depois: a Lei Estadual nº 5.928, de 29 de dezembro de 1995, criou o município de Belterra, que foi instalado em 1º de janeiro de 1997 e passou a ter prefeitura própria, preservando os traços americanos do centro histórico, com casas de madeira e hidrantes ao longo das ruas.

Segundo o IBGE, o município tem 4.398 km² e 18.099 habitantes (Censo 2022), o que dá uma densidade de cerca de 4 habitantes por km². Mais da metade desse território, 56,45%, está dentro da Floresta Nacional do Tapajós, conforme o resumo executivo do plano de manejo publicado pelo ICMBio, que descreve a Flona como o último fragmento significativo de floresta contínua na margem direita do Baixo Tapajós.

A economia de Belterra é predominantemente agrícola, com agricultores familiares, pecuaristas e pequenas indústrias locais. O turismo vem crescendo como fonte de renda, com visitantes atraídos pelas praias do Tapajós e pelo interesse histórico nas construções da era Ford.

O que fazer em Belterra: floresta, praias e centro histórico

Belterra combina história e natureza como poucos lugares da Amazônia. A Floresta Nacional do Tapajós foi criada pelo Decreto nº 73.684, de 19 de fevereiro de 1974, e tem 530.620 hectares, segundo o ICMBio, distribuídos pelos municípios de Belterra, Aveiro, Placas e Rurópolis. Seu limite norte começa no km 50 da BR-163 e vai até o rio Tapajós. Dentro dela, as comunidades de Maguari e Jamaraquá recebem visitantes com trilhas na mata, caminhadas até uma sumaúma gigante, que a Prefeitura descreve como milenar, banhos de igarapé, observação de fauna e passeios de barco pelo Tapajós.

Sumaúma gigante com raízes tabulares em trilha na floresta, na região de Belterra
Igarapé de água esverdeada correndo entre as árvores da floresta, na região do Tapajós
Tronco de árvore centenária visto de baixo, entre as copas da floresta amazônica

As praias de rio surgem na vazante, com areia clara e água doce. A Prefeitura de Belterra lista entre as principais Pindobal, Aramanaí, Cajutuba, Maguari, Santa Cruz e Porto Novo. Nos meses de seca, entre o segundo semestre e o início do ano, as barracas de palha se enfileiram na areia e o pôr do sol sobre o Tapajós é um dos cartões-postais da região.

Canoa de madeira na areia de uma praia do rio Tapajós, em Belterra, sob céu nublado
Barracas de palha enfileiradas em praia de areia clara às margens do rio Tapajós
Pôr do sol sobre o rio Tapajós visto de dentro de uma barraca de palha na praia

No centro histórico, Belterra preserva muitas construções da era Ford: as casas de estilo americano da Vila Americana e da Vila Mensalista, as caixas d’água metálicas, a Igreja de Santo Antônio, a Praça Brasil e o Centro de Memória de Belterra. Ali também fica o Bosque das Seringueiras, remanescente da plantação original que hoje é área de pesquisa e memória. Contamos essa história em O Bosque das Seringueiras em Belterra. A cidade ainda celebra sua herança com festivais e eventos culturais que reúnem visitantes de toda a região.

Caixa d'água metálica da era Ford em Belterra, com uma pessoa ao pé da torre
Casa de madeira branca com detalhes verdes e hidrante vermelho em frente, na Vila Americana de Belterra

Legado de Belterra: patrimônio e tombamento

Hoje Belterra é uma cidade viva que guarda os traços de uma história única. Segundo a Prefeitura, parte das construções da era Ford está tombada como patrimônio histórico e permanece intacta. Já o reconhecimento federal ainda não aconteceu: o processo de tombamento das áreas de Belterra e Fordlândia (nº 1311-T-90) tramita no Iphan desde os anos 1990 e, em janeiro de 2023, a área técnica do instituto reafirmou parecer pelo indeferimento, por não identificar valores excepcionais do ponto de vista histórico, paisagístico ou arqueológico, conforme ofício do Iphan. Ou seja: as casas, os hidrantes e as caixas d’água seguem de pé como testemunho do experimento de Henry Ford, mas sua proteção depende sobretudo do município e da comunidade.

Belterra também se destaca pelo turismo ecológico, por ser a porta de entrada da Floresta Nacional do Tapajós e por suas praias. A cidade oferece um vislumbre de um capítulo singular da história da Amazônia, em que a ambição industrial americana encontrou os limites da natureza e da cultura local.

Reflexões e lições aprendidas

A história de Belterra é um lembrete dos limites da intervenção humana na natureza e das complexidades culturais que qualquer grande empreendimento precisa respeitar. Fordlândia e Belterra falharam em seus objetivos originais, mas deixaram um legado de aprendizado e adaptação, com lições sobre sustentabilidade e sobre a importância de conhecer o contexto ambiental e cultural antes de impor um modelo de fora.

Em suma, Belterra é o exemplo de como a visão de um magnata americano colidiu com a realidade da floresta, e de como dessa colisão nasceu uma cidade única, que continua a ser um testemunho histórico e cultural de uma era passada.

Perguntas frequentes sobre Belterra

Onde fica Belterra?

Belterra fica no oeste do Pará, na região de Santarém (Baixo Amazonas), na margem direita do Baixo Tapajós. A sede do município está a cerca de 45 km do centro de Santarém, pela rodovia federal BR-163, segundo as prefeituras de Belterra e de Santarém.

Quantos habitantes tem Belterra?

Belterra tem 18.099 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE. Em 2010 eram 16.318. O município ocupa 4.398 km², o que dá uma densidade de cerca de 4 habitantes por km².

Como chegar a Belterra?

O acesso é por Santarém, que tem aeroporto e porto. De lá, segue-se pela BR-163 por cerca de 45 km até a sede de Belterra, de carro, transfer ou transporte rodoviário regional. A mesma rodovia leva às entradas da Floresta Nacional do Tapajós, cujo limite norte começa no km 50 da BR-163, conforme o ICMBio.

Por que Belterra é chamada de cidade americana?

Porque foi construída a partir de 1934 pela Companhia Ford, de Henry Ford, seguindo o modelo urbano dos Estados Unidos: casas de madeira com varanda e janelas verdes, hidrantes nas ruas, caixas d’água metálicas, hospital e escolas. Parte desse conjunto permanece de pé na Vila Americana e na Vila Mensalista, no centro histórico.

O que fazer em Belterra?

Visitar o centro histórico da era Ford (Vila Americana, caixas d’água, Centro de Memória, Igreja de Santo Antônio, Praça Brasil e Bosque das Seringueiras), tomar banho nas praias de rio do Tapajós, como Pindobal, Aramanaí, Cajutuba, Maguari, Santa Cruz e Porto Novo, e fazer trilhas na Floresta Nacional do Tapajós a partir das comunidades de Maguari e Jamaraquá.

Belterra fica perto de Alter do Chão?

Sim. Alter do Chão é um distrito de Santarém, também na margem direita do rio Tapajós, a cerca de 37 km da cidade pela rodovia estadual Everaldo Martins, segundo a Prefeitura de Santarém; Belterra fica a cerca de 45 km de Santarém pela BR-163. Os dois lugares têm história ligada: o distrito de Belterra foi criado em 1947 desmembrado do distrito de Alter do Chão, segundo o IBGE.

A Zoé em Belterra

Sala cirúrgica equipada com mesa de cirurgia, focos de luz e aparelho de anestesia
Sala cirúrgica com mesa de cirurgia, focos de luz e aparelho de anestesia.
Equipe cirúrgica paramentada realizando um procedimento sob o foco cirúrgico
Equipe cirúrgica paramentada durante um procedimento, sob o foco cirúrgico.

Belterra é o município onde a ONG Zoé mais atua e a base das suas expedições no Tapajós. As expedições levam profissionais de saúde voluntários a comunidades ribeirinhas e indígenas da região, e a relação com a cidade se aprofundou em 2026: a Zoé abriu uma filial em Belterra, com CNPJ 43.982.556/0002-14 e estatuto registrado em 28 de agosto de 2026. Até 8 de setembro de 2026, o impacto acumulado da organização somava 30.197 atendimentos, 53 expedições e 482 voluntários. Para conhecer o trabalho no município, visite a página da Zoé em Belterra e veja as próximas expedições. Se quiser fazer parte dessa história, você pode Doar para a Zoé ou se inscrever como voluntário.

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