Uma expedição médica dura poucos dias. A pergunta difícil vem depois da expedição: o que acontece com quem foi atendido quando a equipe desembarca, guarda o equipamento e volta para casa? É uma crítica frequente ao modelo de mutirão — atendimento concentrado, sem continuidade do cuidado — e é uma crítica que merece resposta com dados.
Este texto responde com o que está anotado no sistema de expedições da ONG Zoé: quantas vezes cada local recebeu uma nova visita, com que intervalo, como funciona o acompanhamento remoto em saúde mental entre uma expedição e outra, e o que a Zoé ainda não mede. A última parte é tão importante quanto a primeira. Onde não há número, este texto diz que não há.
Neste texto
Por que continuidade do cuidado é o problema central, e não um detalhe
A própria lei que organiza o Sistema Único de Saúde define o que se espera de um serviço de saúde. A Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990, lista entre os princípios do SUS a “integralidade de assistência, entendida como conjunto articulado e contínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema” (art. 7º, inciso II). A mesma lei põe entre as diretrizes a “regionalização e hierarquização da rede de serviços de saúde” (art. 7º, inciso IX, alínea b).
Ou seja: contínuo e articulado com uma rede. Um atendimento que acontece uma vez e nunca mais não cumpre nenhuma das duas coisas. Por isso a pergunta sobre o depois não é um detalhe de comunicação — é o teste do modelo.
A resposta da Zoé tem quatro partes, e cada uma tem um grau diferente de evidência: os ciclos de retorno aos mesmos locais (medido), o encaminhamento à rede pública (descrito, não quantificado publicamente), o programa contínuo de saúde mental com telemedicina (medido em atendimentos registrados) e o pós-operatório (parcialmente inferível do calendário, não medido como desfecho clínico).
Fonte desta seção: Lei nº 8.080/1990, texto consolidado no Portal da Legislação da Presidência da República (planalto.gov.br), consultado em 15/09/2026. Ver a lei na íntegra.
Depois da expedição vem o retorno: quantas vezes a Zoé voltou a cada local
O registro de expedições da Zoé tem 61 lançamentos. Descontando os que ainda não começaram e os seis lançamentos anuais do programa contínuo de saúde mental — que são programas de ano inteiro, não viagens —, sobram 53 expedições presenciais já realizadas, a primeira em novembro de 2020.
Essas 53 expedições se distribuem por 12 locais. A tabela abaixo mostra quantas vezes cada um recebeu a equipe, quando foi a primeira e a última visita e qual o intervalo médio entre visitas consecutivas.
| Local (nome no registro) | Expedições | 1ª visita | Última visita | Intervalo médio entre visitas |
|---|---|---|---|---|
| Belterra (PA) | 27 | 04/11/2020 | 16/07/2026 | 80 dias |
| Rio Arapiuns (PA) | 6 | 01/12/2022 | 25/08/2026 | 273 dias |
| Terra Indígena Zo’é (PA) | 5 | 23/02/2023 | 20/06/2026 | 303 dias |
| Aveiro (PA) | 3 | 08/08/2022 | 06/03/2025 | 470 dias |
| Jurutí (PA) | 2 | 03/06/2022 | 07/06/2023 | 369 dias |
| Santarém (PA) | 2 | 08/08/2022 | 25/09/2023 | 413 dias |
| Terra Indígena Waiwai (PA) | 2 | 02/12/2025 | 24/04/2026 | 143 dias |
| São Paulo (SP) | 2 | 29/08/2025 | 29/08/2026 | 365 dias |
| Óbidos (PA) | 1 | 11/03/2024 | — | — |
| Rio Mamuru (PA) | 1 | 07/06/2023 | — | — |
| Rio Tapajós (PA) | 1 | 25/09/2023 | — | — |
| Xingu (PA) | 1 | 13/11/2023 | — | — |
Lendo a tabela de cima a baixo: 8 dos 12 locais receberam uma segunda visita e 4 receberam três ou mais. Quatro aparecem uma vez só — e este texto não vai chamar isso de outra coisa.
Uma observação sobre o que ficou de fora. No registro aparecem também “Abaré” (9 expedições) e “Abaré II” (3 expedições). São embarcações de terceiros usadas como base fluvial de atendimento, não comunidades — somá-las como “lugares visitados” inflaria a conta. Pela mesma razão, o “Barco Papa Francisco”, que aparece uma vez, também está fora da tabela.
Fonte desta seção: registro de expedições da Zoé (Airtable), consulta em 15/09/2026. Intervalos calculados a partir das datas de início de cada expedição; o campo “Local” é preenchido manualmente pela equipe, e um mesmo lugar pode aparecer com grafias diferentes.
Belterra: retorno a cada 80 dias, em média
Belterra é o caso em que a palavra “ciclo” se sustenta. Foram 27 expedições presenciais entre 04/11/2020 e 16/07/2026 — intervalo médio de 80 dias entre uma e a seguinte, com o menor intervalo em 26 dias e o maior em 340. Na prática, algo próximo de uma visita a cada dois meses e meio, ao longo de quase seis anos.
Isso muda a natureza do atendimento. Um exame alterado encontrado numa expedição de março pode ser reavaliado numa expedição de junho pela mesma organização, no mesmo hospital municipal — que é onde boa parte dessas expedições acontece, segundo a página do município no site da Zoé. Uma das expedições de 2023 leva no nome o próprio equipamento: “Hospital Municipal de Belterra”.
Rios e terras indígenas: intervalos de meses, não de semanas
Fora de Belterra, o intervalo cresce, e a razão é logística: chegar ao Arapiuns ou às terras indígenas depende de barco ou de avião, de janela de cheia e seca, de autorização e de equipe disponível.

No rio Arapiuns foram 6 expedições desde dezembro de 2022, com intervalo médio de 273 dias — mas com o ritmo claramente acelerando: quatro das seis aconteceram entre agosto de 2025 e agosto de 2026. Na Terra Indígena Zo’é foram 5 visitas desde fevereiro de 2023, com intervalo médio de 303 dias. Na Terra Indígena Waiwai, duas visitas separadas por 143 dias.
Sobre as terras indígenas, uma nota de método que vale a pena declarar: a Zoé não publica coordenadas, mapas detalhados nem imagens identificáveis dessas comunidades, e não estima população. Isso é decisão de segurança das pessoas que vivem lá, não falta de dado.
Onde a Zoé foi uma vez só
Óbidos, rio Mamuru, rio Tapajós e a região do Xingu aparecem uma única vez cada um no registro. São atendimentos reais, feitos e contabilizados — mas, até 15/09/2026, sem segunda visita registrada. Chamar isso de “continuidade” seria inflar o número; o honesto é dizer que nesses quatro casos o modelo de ciclo ainda não se aplica.
Encaminhamento à rede do SUS: o que a lei garante e o que a Zoé faz
Uma organização não governamental não substitui a rede pública, e a Zoé não opera como sistema paralelo: boa parte das expedições acontece em equipamentos públicos, com equipes locais, e o paciente que precisa de seguimento continua sendo paciente do SUS.
Para as populações indígenas, a articulação está escrita em lei. A Lei nº 9.836, de 23 de setembro de 1999, instituiu o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena como componente do SUS e determina que “o SUS servirá de retaguarda e referência ao Subsistema de Atenção à Saúde Indígena”, garantindo o acesso “em âmbito local, regional e de centros especializados”, compreendendo atenção primária, secundária e terciária (art. 19-G, §§ 2º e 3º). A mesma lei determina que o modelo leve em conta “a realidade local e as especificidades da cultura dos povos indígenas” (art. 19-F).
É nesse arranjo que a expedição se encaixa: ela leva especialidade e equipamento onde eles não chegam com regularidade, e devolve o caso à rede que tem a obrigação legal de segui-lo.
Aqui vem a primeira lacuna deste texto, e ela é grande: a Zoé não publica quantos pacientes foram encaminhados à rede pública depois de cada expedição, nem o que aconteceu com esses encaminhamentos. O registro de expedições contabiliza atendimentos realizados, especialidades presentes, horas doadas e parceiros — não desfecho de encaminhamento. Enquanto esse indicador não existir de forma auditável, ele não será afirmado aqui.
Fonte desta seção: Lei nº 9.836/1999, Portal da Legislação da Presidência da República (planalto.gov.br), consultada em 15/09/2026 (texto integral); registro de expedições da Zoé (Airtable), consulta em 15/09/2026.
Telessaúde e saúde mental: o elo entre uma expedição e a seguinte
O acompanhamento a distância deixou de ser improviso e virou modalidade regulada no Brasil. A Lei nº 14.510, de 27 de dezembro de 2022, alterou a Lei nº 8.080/1990 para autorizar e disciplinar a telessaúde em todo o território nacional, definindo-a como “a modalidade de prestação de serviços de saúde a distância, por meio da utilização das tecnologias da informação e da comunicação” (art. 26-B), com validade dos atos profissionais em todo o país e com direito do paciente de recusar o atendimento remoto e ser visto presencialmente sempre que solicitar (art. 26-A, inciso III).
É nesse regime que roda o programa contínuo de saúde mental da Zoé. Segundo a página do programa, a psiquiatria atua por telemedicina enquanto a psicologia é presencial nas expedições, formando um modelo integrado; entre as expedições, teleconsultas por vídeo mantêm o vínculo, e na expedição seguinte os casos são reavaliados presencialmente e os planos terapêuticos atualizados. O programa também prevê formação de agentes comunitários de saúde em primeiros cuidados psicológicos e protocolos adaptados à realidade amazônica.
Ao contrário das expedições, esse programa não tem data de início e fim de viagem: ele é lançado como registro anual. Os atendimentos anotados em cada ano:
| Ano do programa contínuo | Psicologia (atendimentos registrados) | Psiquiatria (atendimentos registrados) |
|---|---|---|
| 2024 (a partir de 01/04) | 27 | 61 |
| 2025 | 103 | 61 |
| 2026 (parcial, até 15/09) | 65 | 40 |
Além do programa contínuo, a saúde mental aparece nas viagens: 7 expedições presenciais a Belterra levaram psicólogo ou psiquiatra na equipe, entre janeiro de 2023 e julho de 2026, incluindo as edições de Janeiro Branco de 2023, 2024, 2025 e 2026. Antes disso, em 2022, duas expedições fluviais também tiveram psicologia e psiquiatria na escala.
Também aqui existe lacuna declarada: os números da tabela são atendimentos registrados, e não pacientes únicos acompanhados ao longo do tempo. A Zoé não publica taxa de comparecimento às teleconsultas nem tempo médio de acompanhamento por paciente.
Fonte desta seção: Lei nº 14.510/2022, Portal da Legislação da Presidência da República (planalto.gov.br), consultada em 15/09/2026 (texto integral); página do programa de psicologia no site da Zoé; registro de expedições da Zoé (Airtable), consulta em 15/09/2026.
Pós-operatório: o que o calendário mostra e o que ele não prova
Cirurgia é o procedimento em que a pergunta sobre o depois pesa mais. Quem opera assume o seguimento — e, num lugar sem cirurgião fixo, isso só é possível se houver retorno.
O que o registro mostra: 10 das 27 expedições presenciais a Belterra tiveram cirurgião na equipe, da inauguração do centro cirúrgico, em novembro de 2021, à jornada cirúrgica de junho de 2026. O intervalo médio entre duas expedições cirúrgicas consecutivas no município foi de 185 dias — cerca de seis meses —, com o menor intervalo em 90 dias e o maior em 399. As jornadas se repetem em datas reconhecíveis no calendário da organização, como o Junho Cirúrgico e o Dezembro Cirúrgico.
O que o calendário não prova: que cada paciente operado foi reavaliado. Retorno da equipe é condição necessária, não prova de seguimento individual. A Zoé não publica taxa de retorno pós-operatório, taxa de complicação nem número de reoperações — e, sem esse dado, este texto não afirma que o pós-operatório está resolvido. Afirma que existe estrutura de retorno ao mesmo hospital, com periodicidade medida.
Fonte desta seção: registro de expedições da Zoé (Airtable), consulta em 15/09/2026, campo de especialidades por expedição.
O que ainda não medimos — e por que dizer isso importa
Reunindo as lacunas espalhadas pelo texto, esta é a lista do que a Zoé, até 15/09/2026, não publica:
- Pacientes únicos. O registro conta atendimentos, não pessoas distintas acompanhadas ao longo dos anos. Um paciente visto em três expedições aparece três vezes.
- Encaminhamentos à rede pública. Não há número publicado de encaminhamentos nem acompanhamento do desfecho deles.
- Comparecimento às teleconsultas. Não há taxa publicada de adesão ao acompanhamento remoto.
- Seguimento pós-operatório. Não há taxa de retorno, de complicação ou de reoperação publicada.
- Resultado clínico de longo prazo. Não há indicador publicado de desfecho — controle de doença, sobrevida ou qualidade de vida.
Vale separar duas coisas que costumam ser confundidas. A prestação de contas financeira da Zoé passa por auditoria externa: o exercício de 2023 foi auditado pela Grant Thornton Auditoria e Consultoria Ltda. e os de 2024 e 2025 pela BDO RCS Auditores Independentes SS Ltda., os três com parecer sem ressalvas, e os relatórios estão publicados na página de transparência. Já os indicadores clínicos de continuidade descritos acima não têm essa camada de verificação — e é exatamente por isso que eles aparecem aqui como lacuna, e não como conquista.
Fonte desta seção: demonstrações contábeis auditadas publicadas pela Zoé (exercícios de 2023, 2024 e 2025) e registro de expedições da Zoé (Airtable), consulta em 15/09/2026.
O balanço honesto: o que a continuidade do cuidado já é e o que ainda não é
Colocando tudo em uma frase: nos locais em que a Zoé se instalou de fato, o retorno é medido e frequente — Belterra a cada 80 dias em média, ao longo de quase seis anos, com jornadas cirúrgicas a cada seis meses e um programa de saúde mental que roda o ano inteiro entre as viagens. Nos locais visitados uma vez só, não há ciclo, e dizer o contrário seria falso.
No meio do caminho estão os rios e as terras indígenas, com retorno real, porém anual ou quase — o suficiente para reavaliar um caso cirúrgico, insuficiente para chamar de acompanhamento clínico regular.
E, transversal a tudo, falta a camada que transformaria calendário em desfecho: contagem de pacientes únicos, encaminhamentos rastreados e seguimento pós-operatório. Quando esse dado existir, ele poderá ser publicado; até lá, não será afirmado aqui.
Acompanhe e apoie
Cada expedição tem página própria com atendimentos, equipe, horas doadas e parceiros. Dá para conferir local por local, ano a ano, e verificar por conta própria os intervalos citados aqui: veja o histórico completo de expedições.
Retorno custa caro: é combustível, é equipe, é equipamento levado e trazido de novo. Voltar ao mesmo lugar pela terceira vez não rende foto inédita, mas é o que transforma mutirão em cuidado. Se você quer que a próxima visita aconteça, apoie a ONG Zoé com uma doação. E se você é profissional de saúde, a organização recebe inscrições de voluntários em quero ser voluntário.
O que acontece depois da expedição com quem foi atendido?
Depende do local. Onde a Zoé mantém ciclo de retorno, o paciente pode ser reavaliado pela mesma equipe na visita seguinte: em Belterra, no Pará, foram 27 expedições presenciais entre novembro de 2020 e julho de 2026, com intervalo médio de 80 dias. Em saúde mental, o acompanhamento entre as viagens é feito por telemedicina. Casos que exigem seguimento continuado seguem na rede pública de saúde. A Zoé não publica, até 15 de setembro de 2026, o número de encaminhamentos nem o desfecho deles.
Quantas comunidades receberam mais de uma visita da Zoé?
No registro de expedições consultado em 15 de setembro de 2026, 53 expedições presenciais se distribuem por 12 locais. Desses, 8 receberam uma segunda visita e 4 receberam três ou mais. Quatro locais aparecem uma única vez, sem retorno registrado até essa data.
Qual é o intervalo entre uma expedição e outra no mesmo lugar?
Varia muito com a logística. Em Belterra, a média é de 80 dias entre visitas consecutivas, com mínimo de 26 e máximo de 340. No rio Arapiuns, a média é de 273 dias; na Terra Indígena Zoe, de 303 dias; em Aveiro, de 470 dias. As médias são calculadas sobre as datas de início das expedições registradas.
Como funciona o acompanhamento de saúde mental entre as expedições?
Segundo a página do programa no site da Zoé, a psicologia é presencial nas expedições e a psiquiatria atua por telemedicina, com teleconsultas por vídeo entre as viagens e reavaliação presencial na expedição seguinte. A telessaúde é modalidade autorizada e disciplinada pela Lei 14.510, de 2022, que alterou a Lei 8.080, de 1990, e garante ao paciente o direito de recusar o atendimento remoto e ser visto presencialmente.
A Zoé acompanha o pós-operatório dos pacientes?
Existe estrutura de retorno: 10 das 27 expedições presenciais a Belterra levaram cirurgião na equipe, com intervalo médio de 185 dias entre duas jornadas cirúrgicas consecutivas no mesmo município. Isso permite reavaliação presencial, mas não prova seguimento individual. A organização não publica taxa de retorno pós-operatório, de complicação ou de reoperação.
Quais indicadores de continuidade a Zoé ainda não publica?
Cinco, declarados abertamente: pacientes únicos acompanhados ao longo do tempo, número e desfecho dos encaminhamentos à rede pública, taxa de comparecimento às teleconsultas, seguimento pós-operatório e resultado clínico de longo prazo. A prestação de contas financeira passa por auditoria externa independente; os indicadores clínicos de continuidade ainda não têm essa camada de verificação.