Os mestres do carimbó são os músicos, cantadores, artesãos de tambores e dançarinos das comunidades do Pará que guardam o ritmo e o ensinam às novas gerações, um saber que o Iphan reconheceu como Patrimônio Cultural do Brasil em setembro de 2014. Este guia apresenta quem são eles, de onde vêm, o que fizeram pelo carimbó e onde ouvi-los.
O carimbó nasce entre pescadores e lavradores do nordeste do Pará e leva o nome do seu tambor principal, o curimbó. Dança-se em pares, em passos curtos e circulares, sem se tocar. Da roda de pau e corda ao palco elétrico, cada mestre abaixo puxou o ritmo para um lado.
Pinduca: o Rei do Carimbó

Aurino Quirino Gonçalves nasceu em Igarapé-Miri em 4 de junho de 1937, filho de um professor de música, e ainda menino já tocava percussão. Aos 14 anos foi para Belém tocar em bandas de baile. Em 1973 gravou “Carimbó e Sirimbó do Pinduca” e fez o que ninguém tinha feito: pôs guitarra, baixo, teclado e bateria no carimbó. O ritmo saiu do Pará e chegou às rádios e à televisão do país inteiro.
Em 2017, o álbum “No Embalo do Pinduca” foi indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Raízes Brasileiras; em 2025, a Assembleia Legislativa declarou sua obra Patrimônio Cultural e Artístico de Natureza Imaterial do Pará. Aos 89 anos, segue fazendo shows: está anunciado no Festival Psica 2026, em Belém, em dezembro. A história disco a disco está na Enciclopédia Itaú Cultural.
Mestre Verequete: o rei do carimbó pau e corda
Augusto Gomes Rodrigues nasceu em 26 de agosto de 1916 na localidade de Careca, perto da vila de Quatipuru, então município de Bragança, e morreu em 2009. Enquanto Pinduca eletrificava o ritmo, Verequete defendia o carimbó de raiz, tocado no estilo pau e corda: curimbós, banjo, maracas e sopro. Fundou em Belém o Conjunto Uirapuru da Amazônia, gravou cerca de 200 músicas em dez LPs e quatro CDs, entre elas “Chama Verequete” e “Ilha do Marajó”, e recebeu a Ordem do Mérito Cultural. Não chegou a ver o registro do Iphan. Para ouvir: a Rádio Web UFPA guarda sua memória musical.
Dona Onete: a diva do carimbó chamegado

Nascida em Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó, em 1939, Dona Onete foi professora de história e geografia por 25 anos e secretária de cultura em Igarapé-Miri, no Baixo Tocantins. Só virou cantora profissional depois de se aposentar, aos 62 anos, e gravou o primeiro disco, “Feitiço Caboclo”, aos 73, em 2012. Vieram “Banzeiro” (2016) e “Rebujo” (2020).
Ela inventou o carimbó chamegado: mais lento, mais sensual, feito para dançar juntinho. Levou o ritmo ao Rock in Rio, a festivais da Europa e a Nova York. Onde ouvir: no canal oficial de Dona Onete no YouTube. Ela também está na nossa lista de cantoras paraenses.
Grupo Uirapuru: a tradição de Marapanim, a Terra do Carimbó

Marapanim, no nordeste do Pará, é chamada de Terra do Carimbó: tem dezenas de grupos em atividade e um festival anual em dezembro, com rodas e mestres na Praça Nossa Senhora das Vitórias. Entre os grupos mais tradicionais está o Uirapuru de Marapanim — homônimo, mas distinto do conjunto de Verequete, em Belém —, cuja associação cultural assinou o pedido de registro do carimbó ao Iphan.
Seu presidente, Mestre Manoel (Manoel Aguinaldo Farias Pinto), é pescador, artesão de curimbós e milheiros e compositor. Entrou no grupo aos 22 anos, convidado pelos mestres Ninito e Luís, e recebeu da Fundação Cultural do Pará o Prêmio Seiva de Mestre de Carimbó em 2017. O grupo mantém uma escolinha para crianças, o Uirapuru Mirim. Fotos, vídeos e formação completa estão na cartografia Territórios do Carimbó.
Arraial do Pavulagem: o carimbó nas ruas de Belém

Criado em Belém em 1987 pelos músicos Ronaldo Silva, Júnior Soares e Rui Baldez, o Arraial do Pavulagem é ao mesmo tempo banda e movimento de rua. Nos domingos do período junino, entre junho e julho, o Arrastão do Pavulagem sai da Praça da República, em frente ao Theatro da Paz, e desce até a Praça Waldemar Henrique com milhares de brincantes de chapéu de palha e fitas coloridas, ao som de carimbó, siriá e lundu marajoara.
Desde 2003, o Instituto Arraial do Pavulagem mantém oficinas que formam os novos brincantes e organiza também o Arrastão do Círio. O cortejo é Patrimônio Cultural de Belém (2017) e do Pará (2020), e em 4 de setembro de 2024 a Lei federal 14.961 o reconheceu como manifestação da cultura nacional. Discos e agenda: site do Arraial do Pavulagem.
Mestres do carimbó no Baixo Amazonas: Alter do Chão e Santarém

No oeste do Pará, o carimbó tem sotaque próprio. Em Alter do Chão, vila de Santarém, o Movimento de Roda de Curimbó, criado em 2010, religou o ritmo às danças do Sairé, a festa de setembro. Dele saíram grupos como o Cobra Grande, que toca ao lado do Mestre Chico Malta, compositor que dá nome ao centro de referência do carimbó na vila, onde acontece, toda quinta-feira, a roda “Quinta do Mestre e a Sereia”.
Espanta Cão, Kuatá, Cumaru e Suraras do Tapajós completam a cena, que se encontra no Carnarimbó, o carnaval ao som de carimbó, e no Festival Alter do Som, em dezembro. A Prefeitura de Santarém publica a programação.
Carimbó de raiz e carimbó moderno
O carimbó de raiz, ou pau e corda, é o das rodas: dois ou três curimbós, maracas, milheiros, banjo e flauta ou sax, como tocavam Verequete e tocam o Uirapuru e os grupos de Alter do Chão. O carimbó moderno, ou estilizado, é o que Pinduca criou em 1973 com guitarra, baixo, teclado e bateria, e que Dona Onete e o Arraial do Pavulagem levam adiante com sotaques próprios. Não são rivais: o Iphan registrou o carimbó como uma só forma de expressão, documentada desde o século XIX e reinventada a cada geração. Para origem, instrumentos e passos, leia o que é carimbó.
Perguntas frequentes
Quem são os mestres do carimbó?
São os músicos, compositores, artesãos de tambores e dançarinos que aprenderam o carimbó nas comunidades do Pará e o transmitem às novas gerações. O título nasce do reconhecimento da própria comunidade carimbozeira e é acolhido por políticas públicas: a Fundação Cultural do Pará premia mestres com o Prêmio Seiva, e o Iphan faz a salvaguarda com o coletivo de Mestres e Mestras Detentores do Saber do Carimbó. Pinduca, Mestre Verequete, Dona Onete, Mestre Manoel e Mestre Chico Malta são alguns deles.
Quem é o rei do carimbó?
Dois mestres carregam o título. Pinduca (Aurino Quirino Gonçalves, Igarapé-Miri, 1937) é chamado de Rei do Carimbó pela imprensa e pela Enciclopédia Itaú Cultural por ter modernizado o ritmo nos anos 1970 e o levado ao Brasil inteiro. Mestre Verequete (Augusto Gomes Rodrigues, 1916–2009) também é chamado de Rei do Carimbó, o do estilo tradicional, pau e corda. Não é um título oficial: é reconhecimento popular.
O carimbó é patrimônio?
Sim. Em 11 de setembro de 2014, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprovou por unanimidade o registro do carimbó como Patrimônio Cultural do Brasil, inscrito no Livro das Formas de Expressão do Iphan. Em 2024, a Lei federal 14.961 reconheceu o Arraial do Pavulagem, que leva o carimbó às ruas de Belém, como manifestação da cultura nacional.
Onde ver carimbó de raiz ao vivo?
Em Marapanim, a Terra do Carimbó, no Festival de Carimbó de dezembro; em Alter do Chão (Santarém), nas rodas do centro de referência Mestre Chico Malta, no Carnarimbó e no Sairé, em setembro; e em Belém, nos arrastões do Arraial do Pavulagem, aos domingos do período junino, entre junho e julho.
Quem é Dona Onete?
Cantora e compositora nascida em Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó, em 1939. Foi professora por 25 anos e secretária de cultura em Igarapé-Miri antes de gravar o primeiro disco, Feitiço Caboclo, aos 73 anos, em 2012. Criou o carimbó chamegado, mais lento e sensual, e hoje leva o ritmo a palcos do Brasil, da Europa e dos Estados Unidos.
A Zoé no Pará dos mestres
O carimbó é feito por pescadores, lavradores e ribeirinhos, o mesmo Pará profundo que a ONG Zoé atende. Com base em Belterra, no Tapajós, a Zoé leva profissionais de saúde voluntários a comunidades ribeirinhas e indígenas do Pará e do Amazonas: foram 53 expedições e 30.197 atendimentos até 8 de setembro de 2026. Para ir além da música: Doar para a Zoé ou candidatar-se como voluntário.